Tem coisas que não se ensinam e temos que aprender com
nossas próprias experiências. Por isso, fazem algumas semanas que eu fui
inspirada a escrever uma carta para minha mãe. Resolvi escrever porque, até
aquele momento, nós vínhamos brigando muito e eu me sentia sufocada e presa,
mas a amava mais do que qualquer pessoa e não achava de jeito de conversar com
minha mãe.
Que essa carta, possa inspirar filhos que se sentem
presos ou sufocados (desconsiderar dramas de adolescentes rebeldes), ou mães,
que estão superprotegendo seus filhos. Comigo deu certo, e hoje, meu
relacionamento com minha mãe é divinamente melhor.
Nada acontece por acaso... a vida é fácil, a gente é quem
complica.
RESOLVENDO
PROBLEMAS
Mãe;
Quero te falar coisas
que você não escuta. Quero te mostrar coisas que talvez, falando, eu não tenha
paciência. Quero te explicar coisas que, talvez, eu não tenha jeitinho para
dizer. E, de repente, me deu vontade de escrever. Sempre me dei muito bem para
expressar sentimentos e emoções através das palavras escritas e, acho que
assim, você vai me entender melhor.
Primeiro eu quero que
tu saibas que eu te amo. Amo
incondicionalmente, amo mais do que qualquer pessoa neste mundo e mais do que a mim mesma. Eu te agradeço com todo meu coração por
absolutamente tudo que tu fez e faz por mim e para mim. Cada comida preparada
com amor, cada roupa lavada com carinho, cada noite difícil de dormir por se
preocupar comigo, por todas as vezes que me ajudou, me acompanhou, me
incentivou, mas, principalmente, por todo carinho e amor que tu tem por mim.
Eu entendo cada
preocupação e tudo que tu faz por mim, mas tu sabe que continua me sufocando,
né?! Já conversamos sobre isso tantas vezes, mas tu esquece. Sabia que tudo que
eu faço, mesmo tendo 29 anos, é pensando em ti? Eu não vou em lugar algum sem
te avisar, eu não fico fora de casa até tarde sem te avisar, eu não vou no
mercado comprar um salgadinho sem te avisar, eu não faço nada sem pensar em ti.
E eu não estou vivendo minhas experiências, sejam elas boas ou não, porque
penso somente no que tu não ia querer, como uma criança indefesa.
Eu estou presa a ti e
tudo que eu penso em fazer eu preciso antes do teu consentimento. Eu não consigo
caminhar com as minhas próprias pernas, levar meus tombos e levantar sozinha.
Tu não deixa. Tu não me deixa viver com liberdade.
Tudo
que mais quero nesta vida é te ver feliz e inúmeras vezes eu
deixei de fazer coisas que me fariam feliz em determinados momentos, porque tu
queria, simplesmente, que eu estivesse em casa, por exemplo. E então, quando
isso acontecia, eu acabava de mau-humor e a gente brigava. E eu falava para ti
sobre tu estar me sufocando, e mesmo assim, tudo continua acontecendo.
As vezes eu penso que
tu, porque saiu de casa tão nova, precisou trabalhar, enfrentou dificuldades,
não quer que eu passe por situações parecidas, e me superprotege; mas tu, mãe,
com 29 anos, provavelmente era uma pessoa livre. Fazia as coisas que julgava
serem boas ou ruins pra ti e sofria as consequências de cada uma delas,
aprendendo com cada situação. Aprendeu durante toda tua vida, com tuas próprias
escolhas. E assim é vida.
E tu percebe que eu
não consigo fazer isso? Tu percebe que tudo que acontece comigo é tu quem sofre?
Se eu não tenho dinheiro, tu que se preocupa, mas se eu tenho dinheiro, tu que
te preocupa também. Se eu vou sair, tu te preocupa, mas se eu vou ficar sozinha
em casa, tu preocupa também. Se eu vou sair de carro tu preocupa, e se eu vou
sair de ônibus tu preocupa do mesmo jeito. Se eu vou encontrar pessoas tu te
preocupa, se eu vou sair sozinha, tu te preocupa de qualquer forma. Tu te
preocupa se eu vou comer, beber água, dormir, acordar no horário... Para tudo é
assim. Parece que, por ti, eu ficava a vida inteira encerrada em casa, sempre
ao alcance dos teus olhos e fazendo o que tu quer, do jeito que tu quer.
Todos os homens que
se aproximam de mim eu penso primeiro em ti. Penso no que tu quer para mim,
penso que não são pessoas que tu vai gostar. Eu me afasto de todos porque sei
que tu vai achar ruim, vai ver defeitos e vai dizer sempre que eu mereço coisa
melhor. Só que esse melhor nunca aparece e eu acho que não aparece, porque eu
estou procurando algo pra ti. Não estou preocupada com o que vai me fazer bem,
estou preocupada com o que tu quer. E isso não é certo. Isso está me
prejudicando, infelizmente.
Acho que a única
coisa com que tu não te preocupa é com o meu trabalho e, provavelmente, não te
preocupa porque eu quase não falou sobre ele contigo. E tu consegue entender
que isso não me deixa feliz? Tu consegue entender que isso me sufoca, me deixa
triste porque eu penso que “se eu fizer tal coisa a mãe vai ficar braba”, ou “vai
ficar triste”, ou sei lá o que. Sempre
penso em ti porque eu te amo; eu sempre penso no que tu quer para mim, mas
isso não está certo. Eu não estou vivendo para mim, eu estou vivendo para ti.
Tu já reparou que tu
sempre tem um drama? Sempre uma dor, um sentimento de tristeza e aflição? Desde
antes do pai morrer, tu nunca está completamente feliz. E eu sempre sinto como
se a culpa fosse minha, como se tudo que eu fizesse te magoa. Se tu fica
doente, eu penso logo que é porque tu te preocupa de mais comigo e que eu não
estou fazendo nada certo pra ti.
Mas mãe, mãe amada, eu não posso viver minha
vida para ti. Assim como tu viveu tua vida e aprendeu com teus os erros, eu
também quero (E PRECISO) viver a minha e aprender com os meus erros. Tu
consegue entender? Eu sempre vou te dizer se vou sair, se não tenho hora para
chegar, se posso pagar as coisas, se vou jantar, se preciso levar comida e tudo
isso que tu precisa saber para não ter que te preocupar.
Eu tenho lido muitos
textos espíritas e eles têm me ajudado bastante a ter mais calma, a ter mais
paciência, a ser mais feliz. Muitas vezes levo para ti, para ver se te ajuda
também, mas não sei se tu lê. Eu li o livro a Magia e achei tão bom, aprendi a
agradecer por tanta coisa que Deus me deu. Aprendi a agradecer pela minha vida,
por minha família e por todo amor que eu tenho de ti e tive do pai. Te dei o
livro para que tu possa acalmar teus
pensamentos e pensar em ti, em viver o teu agora. Queria que tu conseguisse
ver somente as coisas boas também, mas queria que visse as coisas boas em mim,
que visse que eu sei me cuidar e sei como me comportar quando as coisas
acontecem.
Queria que tu
enxergasse, todos os dias, que eu não sou mais criança. Eu não sou burra. Eu
não sou tão inocente. Eu não sou irresponsável. Eu não uso drogas. Eu nunca
tomei um grande porre. Eu nunca joguei dinheiro fora. Eu trabalho honestamente.
Eu sou formada. Eu quero estudar ainda mais. Eu sei amarrar meus tênis. Eu sei
os lugares que posso ir e vir em segurança. Eu nunca passo fome. Eu não sou mãe
solteira. Eu não tenho nenhuma doença. Eu procuro sempre fazer o que é melhor
para minha saúde. Eu sei onde deixar o carro. Eu sei o telefone do guincho se o
carro estragar. Eu não vou beber e dirigir. Eu não vou ficar sozinha em paradas
de ônibus. Eu vou usar camisinha. Eu não vou reagir em caso de assalto. Eu vou
ligar se acontecer alguma coisa. E, mesmo com tudo isso, se eu não souber o que
fazer e alguma situação, eu vou te pedir ajuda, eu vou te pedir orientação,
como sempre. Eu já tenho 29 anos e a única coisa que falta agora é ter minha
liberdade.
Sei que, enquanto eu
estiver morando contigo, as regras são tuas. A casa é tua e é tu que sabe o que
deve ou não acontecer lá dentro. Por isso vou SEMPRE respeitar e te dar
satisfação das coisas que faço. A vida toda já faço isso exageradamente,
inclusive.
O apartamento, eu
comprei no intuito de alugar, para ter uma renda extra (mais uma prova de que
não jogo meu dinheiro fora e sou uma pessoa responsável), mas por causa deste
sufocamento que eu sinto, quando o apartamento estiver pronto, eu provavelmente
irei morar lá. Irei fazer as minhas regras, os meus horários, e controlar a
minha liberdade.
Isso não significa
que eu quero me afastar, portanto, não
faça drama. Isso significa apenas que eu quero dar mais um passo em relação
as minhas responsabilidades, que eu quero aproveitar essa oportunidade e
aprender, porque tem coisas, Mãe, que não se ensinam. Essas coisas a gente tem
que aprender sozinha, cada um com suas experiências, e eu quero ter
oportunidade de ter as minhas, assim como, eu tenho certeza, tu teve as tuas. E
tu também precisa se libertar de mim,
parar de viver por mim.
Antes de tu se
revoltar, de ter crise de choro, de ficar doente por causa do estresse em
consequência de tudo que eu disse aqui, eu
peço que tu te acalme. Essas coisas eu tento falar contigo faz muito tempo,
uns 5 anos pelo menos, eu acho. Em todas as nossas discussões e conversas eu
tentei explicar, mas tu nunca entende. Ou entende e, mesmo assim, não consegue
me soltar. Tu não consegue se desligar do cordão umbilical que um dia nos
prendeu.
Nestes textos
espíritas que leio, vi outro dia uma frase que dizia assim: “A
hora mais escura é sempre antes do amanhecer. Quando você estiver por um fio,
com tudo contra você, e quando sentir que não aguenta mais nem um minuto, essa
é a hora de não desistir, porque esse é o momento em que a luz está prestes a
ser revelada.” (site De
Coração a Coração). E é nisso que eu me apego desde então. Quando acontece
alguma coisa ruim, eu penso e acredito que esta coisa apareceu na minha vida para
que outra coisa melhor e mais bonita possa acontecer. E se prestar bem atenção,
é assim que tem acontecido com meu trabalho, com o dinheiro, com minha saúde...
É assim que tu tem
que pensar, minha mãe amada. Para de ficar doente pelo estresse e para de passar
tua vida se preocupando exageradamente e desnecessariamente comigo. Te acalma! O medo e a dúvida
atrapalham, pioram e desanimam. Tu tem sempre que pensar nas coisas boas, no
que quer viver, no que quer de bom. Por mais que as coisas demorem, tudo
tem um motivo. Tu sempre me dizia que “Deus
escreve certo por linhas tortas”, tu parou de acreditar nisso também? O que
tu cria nos teus pensamentos, tu manifesta na tua vida e, por tu viver com
estresse e preocupações, está sempre cheia de alergias, dores e problemas.
Eu
te amo, mãe, e tu sabe disso. Eu não preciso
falar isto todos os dias por que isso eu sinto no meu coração, e sei que tu
também sente. Eu quero te ver completa e feliz, mas nós precisamos entrar em um
acordo: eu preciso da minha liberdade, e tu quer controlar tudo na minha vida. Se
continuar assim vamos brigar, discutir, ficar doentes e cansadas mentalmente. E
nenhuma de nós precisa disso, né?! Então, mãe amada, tu me diz o que eu preciso
fazer para te ajudar porque, da minha parte, a única
coisa que eu preciso é um pouco mais de liberdade. Eu tive vontade de escrever,
de expressar as coisas que eu sinto, por isso escrevi. Me diz o que mais eu
posso fazer, além de todas as coisas que eu já faço, para que tu fique mais
calma e pare de se preocupar.
Eu quero teu bem, e
parece que eu existir não te faz bem, porque tu vive por mim. Te admiro, mãe, e te amo. Te amo mais que
tudo neste mundo. Vamos nos ajudar?
Tua filha que
te ama muito.
Vanessa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário