sábado, 25 de fevereiro de 2012

Um dia haverá perdão

Uma das minhas avós teve, recentemente, um infarto (avó por parte de pai). Desde que meu pai faleceu, em julho do ano passado, o estado de saúde dela têm piorado, e ela precisa de acompanhante dia e noite. Em função disso, ela foi para uma clínica de repouso.
Hoje fui visitá-la. Não é segredo que ela não era a minha vó preferida, nem eu a neta mais querida para ela, o que tinha piorado quando meus se separam. Ela costumava culpar minha mãe pela separação e, bem sei, nos últimos 7 meses culpado minha mãe pela morte do meu pai. Coisas sem sentido e que, definitivamente, não são relevantes.
Acontece que ela está de fato muito doente. Ela não tem força nem para abrir os olhos. Raciocina normalmente mas não tem forças para falar o que pensou. Come praticamente nada. E tive pena dela.
Pensei na vida dura que ela levou, nas coisas que eu sei que foram feitas ou faladas maldosamente e do vazio que tinha nela. Ela não tinha carinho, passou muito tempo sem falar com um dos filhos e a quem ela deu mais atenção, não pode cuidar 24h dela agora.
Ninguém pode largar as vidas (famílias e trabalho) para prestar os cuidados que ela precisa.
E hoje, quando eu sentei ao lado dela, ela pegou a minha mão e mesmo com toda fraqueza, ela segurou firme. Foi ali que notei: ela só precisa de carinho. Só precisa se sentir segura e amada.
Essa é a parte mais difícil. Como amar quem pouco amou ou quem amou de um jeito diferente? Tive medo. Pois amo pouco, ou demonstro muito pouco o amor que tenho pelas pessoas.
Segurei a mão dela, fiz carinho e vi, pela primeira vez em toda minha vida, ela agradecer e chorar por ter ganhado um beijo.
A menina que está cuidando dela falou que todos os dias ela pergunta se alguém vai ir visitá-la. Mas nem todos os dias pode ir alguém e, assim, as horas vão demorando a passar para ela: dias longos e noites infindáveis de dor e solidão. Desespero! Mas a força de vontade de viver continua. Ela tem fé.
Não a vi pedir perdão.
Não consigo me emocionar diante de acontecimentos assim. Será que ela acha que não precisa de perdão? Ou será que ainda não tenha coragem o suficiente para fazê-lo?
Se eu já a perdoei? Com certeza, sim. Por isso ela ganhou meu carinho, afeto, amor. Mas o coração dela não vai se sentir livre enquanto o perdão não vier dela própria. A sensação que tenho do que ela se transformou ao longo da vida é de vazio... um ar pesado de culpa e solidão.
Nem o melhor dos médicos, nem a mais puras das criaturas pode fazer alguma coisa enquanto ela própria não quiser. Acabei me dando conta que não basta pensar no perdão que se precisa receber. Não adianta apenas desejar se não falarmos o que queremos.
Temos que expressar o que sentimos; demonstrar nosso afeto e nossa vontade de ser perdoados. E de amar. E de viver!
Vivenciando as perdas, aprendi que temos que sorrir, acreditar, ter fé e ser feliz o máximo. Temos que encarar as perdas e aceitar os desafios para sempre crescer. É possível ter uma vida de paz.
Por isso, aproveito para pedir perdão a todos aqueles que algum dia eu possa ter feito algum mau. Perdão por ter sido tantas vezes egoísta, por não ter dado atenção aos amigos e parentes quando eles precisaram. Por ter faltado confraternizações, eventos e reuniões. Perdão por ter sido grosseira e por ter estado de mau-humor sem  motivos. Meu coração está realmente aberto ao arrependimento e, depois de hoje, leve para continuar.
E para minha avó, que ela melhore de espírito para ficar bem do corpo.
Assim eu sigo aprendendo...

Vanessa Fiorenza
25 de fevereiro de 2012.