terça-feira, 6 de setembro de 2016

O amor cabe em um olhar.

   Meus pais foram casados por quase 25 anos. Nesta fase do casamento, já não existia mais afeto ou companheirismo. Não havia troca de carinho, cumplicidade ou sonhos para serem vividos.
   Foi então que eles decidiram se separar. Depois de tantas batalhas vencidas, de tantas conquistas e derrotas, lado a lado, eles optaram por seguir novas vidas e novos sonhos, de um novo jeito.
   No dia em que meu pai saiu de casa, ele se despediu de minha mãe, tímido. E choraram. Naquele momento, se olharam como eu não tinha visto em toda a minha vida.
   Foi um olhar apaixonado, cheio de ternura e que eu não conhecia mesmo entre eles. Era o tal do amor. Acabou que eu não entendi como duas pessoas que se amavam não podiam ficar juntas. Hoje eu sei.
   Depois daquele dia, eu não acreditava que alguém um dia pudesse me olhar daquela exata maneira. Eu tinha desacreditado no amor. Hoje eu sei que eu estava errada nisto também.
   Aprendi ao longo dos anos, que aquela separação aconteceu justamente por amor. Porque eles se amavam tanto que não podiam mais ver um ao outro sendo infelizes e vazios. Sofriam com isso. Então resolveram ir para um novo rumo, e eu presenciei o mais lindo olhar que já tinha visto - até agora.
   O amor é liberdade e felicidade. O amor cabe inteirinho dentro de um olhar e só o descobrimos quando olhamos para alguém exatamente assim: cheios deste amor. Aaah, e quando este alguém nos olha de volta...  A gente sabe que a vida valeu a pena em cada instante, só para, por um momento, ter recebido um olhar assim.
   E acabamos nos libertando, assim como meus pais o fizeram, de toda angústia. Não existe raiva, aflição, posse ou qualquer sentimento ruim. Você apenas deseja felicidade (para você e esta pessoa). Acaba desejando com sua alma que ela possa sorrir, independente da forma como isso vai acontecer.
   Agora eu sei que se não for assim, então não é amor. Esse foi o maior ensinamento que a vida me deu e resta apenas gratidão. A espera e o aprendizado (e a demora) valeram a pena.
   Isso significa que eu estou amando? Se sim, eu espero poder amar desta forma, daqui para frente, durante todos os segundos da minha existência, e fazer caber em cada olhar (com esta pessoa) toda a ternura e amor que um dia vi nos olhos dos meus pais.


Vanessa Fiorenza
06 de setembro de 2016

domingo, 3 de julho de 2016

Esta semana aconteceu algo realmente novo comigo. Em um momento totalmente aleatório, tive a inspiração para escrever como nunca fiz antes. Me perdoem os entendidos da língua: não entendo nada de poesia, poema, métrica... Só escrevi.
Depois, conversando com uma colega, ela disse que havia pedido uma resposta muito tempo atrás, e eu tinha acabado de entregar a resposta para ela.

Disponibilizo aqui, caso seja a resposta para mais pessoas que, por acaso, tenham pedido por ela. Boa leitura.


Nós temos sorriso largo
Temos carinhos de sobra
Compartilhamos alegrias
Damos conselhos
Sabemos ouvir incansavelmente
E somos o ombro amigo de quem vier
Temos raiva de pessoas que fazem coisas erradas
Apreciamos comidas e bebidas
Somos fãs de chocolate quente
E, sobretudo, amamos inteiramente

Porém, todas as noites
Antes de pegar no sono e de sonhar com o nada
Sofremos
Choramos e nos desesperamos
O vazio imenso nos engole
A escuridão nos aprisiona
A dor se faz física
E não há mais vontade de lutar

Temos sonhos que nunca se realizam
Trabalhos que nunca são reconhecidos
Ideias que nunca são utilizadas
Amor que ninguém quer compartilhar
Temos um único fio de esperança em que nos agarramos
Mas, se ele se partir, desistimos de lutar

E damos fim a própria vida
Num sussurro
Ou em um último grito desesperado
No silêncio
Ou na turbulência da vida alheia

E ninguém vê
E ninguém quer ver
E se alguém vê, ignora
Ou ainda ofendem
Ameaçam
Julgam

Mas a maioria não sabe
A maioria vê apenas os sorrisos largos
Os carinhos que oferecemos
As alegrias que compartilhamos
Só querem os nossos conselhos incríveis
Serem ouvidos sem julgamentos
Um ombro amigo...
E entendemos.

E o mundo esquece que também precisamos disso
Que também temos sonhos
Que sofremos muito além do que achamos que somos capazes
Todas as noites são vazias
Sofridas
Com lágrimas
Com dores
E com sonhos não realizados.

Tentamos auto-ajuda
Terapia
Psicólogo
Psiquiatra
Mas não temos dinheiro para tudo
É caro. Muito caro.

Tentamos Anjos
Deuses
Universo
Ho’oponopono
Amigos
Família

E os anjos voam embora
E os Deuses brincam de “dar e tirar”
E o Universo deixa acontecer
E Não conseguimos nos perdoar
E os amigos nos traem - de novo.
E a família julga.

E a dor aumenta
E o vazio nos engole em uma proporção surreal

Não há mais nada
Não há vontade de viver
Não nos encaixamos neste mundo
As pessoas são cruéis
Os dias não têm cores
A política é corrupta
As pessoas são superficiais
Mentiras
Hipocrisia
Total falta de amor

E nós só queremos amar e ser amados
Só queremos compartilhar dias coloridos
Queremos ajuda desesperadamente
E ninguém nos vê
Ninguém enxerga o desespero estampado nos nossos olhos
Ninguém nos estende a mão para nos socorrer

Mas porque não há como socorrer
Ninguém pode obrigar outro alguém a amar
Ninguém pode manipular o livre arbítrio
Ninguém pode arrancar a dor dos nossos corações
Quando perdemos alguém que amamos
Nem nos devolver a dignidade
Quando não encontramos emprego
Nem nos ensinar
Coisas que não são possíveis de aprender

São palavras vagas
Palavras soltas como nossa mente
Como nossos pensamentos
Que voam e flutuam no vazio
São desabafos
Para quem não nos ouve
Para quem não nos vê

Porque ainda temos um fio de esperança
E porque, talvez, ele ainda não tenha arrebentado.


Vanessa Fiorenza
30 de junho de 2016